Vamos lá então à histórinha que prometi contar, acerca da minha adoração pela bicharada.
O Homem Fantasma tinha razão, eu era Maria-Rapaz.
Talvez ainda continue a sê-lo.

Há uns 17 anos atrás, estando nós em 1988, tinha eu sete aninhos.
Ora, as passeatas, convívios, e actividades eram frequentes em minha casa. Eu e as minhas irmãs andavamos nos Escuteiros, e de cada vez que havia uma actividade os meus pais acompanhavam-nos.
Num sábado do dito ano, lá fomos nós fazer um raid de bicicleta até uma freguesia aqui perto. Eram 7 Km, nada de especial, mas para crianças como eu, era mais que suficiente para ficarmos estoiradas.
Chegados ao local, fizemos um pic-nic e depois passamos o tempo entre actividades.
E Maria-Rapaz como era, joguei um bocadinho de todos os jogos.
Mas a certa altura uma árvore do imenso pinhal chamou-me!
Sério! Chamou-me mesmo! E disse-me que tinha no tronco uns bichinhos, lindos, pequeninos, fofinhos, que me queriam conhecer.
Estão mesmo a ver…
Deixei todas as brincadeiras, os jogos, as sobremesas e lá fui eu inspecionar como era costume.
Peguei nos meus novos amiguinhos, pu-los nas mãos (sim, nas duas!) e fiquei vê-los passear para trás e adiante, num ritmo lento, próprio de quem é felpudo e se arrasta.
Depois de ter conversado com eles, lhes ter contado umas anedotas, ter perguntado pelos irmãos, enfim, de ter navegado pelo meu mundo, decidi ir mostrar a nova aquisição aos meus pais.
- Mãe! Olha que fofinhos…
- Pai! Anda ver o que encontrei!
O meu pai, arregalou os olhos, parou a olhar e segundos depois de ter ficado imóvel disse:
- Deita tudo ao chão! Não mexas! Pára! Não ponhas nas mãos! Não mexas em mais nada!
- Oh…mas são tão pequeninos…
O que se seguiu foi uma tremenda choradeira, porque nas mãos começaram a aparecer bolhas, grandes, que faziam muito calor e comichão.
Pois…quem mexe em bichos da madeira sofre este tipo de consequências.
As minhas irmãs acharam piada!
Todos os outros vinham espreitar, dizer como eu era traquinas, ingénua e afins.
Os meus pais abanavam a cabeça, com um sorriso no canto dos lábios.
Acredito que tivesse alguma piada, até porque agora rio-me.
Bem, lá encontraram um creme na mala de primeiros-socorros.
Lembro-me de ser fresquinho e um alívio para tamanha comichão, derivada de todos os pelos microcópicos incustrados na pele.
A volta para casa foi feita de carrinha, sempre a chorar.
Não por causa das dores e das mãos inchadas!
Mas porque estavam todos a voltar de bicicleta e eu não podia porque nem conseguiria segurar o guiador.

E então, jurei para nunca mais pegar em Bichos da Madeira.
Outros sim, mas desses…
NEVER MORE!